Lá no mato tem um bicho
Bispo Agnaldo Sacramento
“LÁ NO MATO TEM UM BICHO” - O pesquisador Frank Clarence Spencer foi um dos primeiros a apresentar interessantes estudos sobre a Pedagogia Ameríndia (ameríndio, ameri + indio, indicação do Dr. Charles Scott ao etnólogo J. Wesley Powell, com o objetivo de distinguir o índio americano do índio asiático). Spencer começou a identificar entre esses povos, dança com o propósito específico de fazer medo aos meninos, despertar sentimentos de obediência e maior respeito aos mais velhos ...
Outros grupos tribais, como os Zuñi, apresentavam danças macabras, culminando com a morte de uma criança, adrede preparada, dentre as de pior comportamento. Era a Pedagogia do terror e do medo. Gilberto Freire, na sua inigualável obra, Casa Grande e Senzala, fala do clássico trabalho de Alexander Francis Chamberlain sobre a criança na cultura primitiva e no folclore das culturas históricas. Cita esse autor que na antiga cultura hebraica, era a figura do demônio “Lilit” (do hebraico, tem-se Laila, noite); era um “monstro cabeludo e horrendo que voava de noite em busca de criança”. E entre os gregos, as Strigalai; entre os romanos, Caprimulgus, “que saía de noite para tirar leite de cabra e comer menino”; entre os alemães, o bicho é o Papenz; entre os escoceses e os ingleses, o Boo Man, o Bogle Man. No Brasil, “danças semelhantes de “diabo”, Jurupari – (de yuru-pari, boca fechada. Nome de uma entidade da mitologia dos índios, o espírito do mal, o diabo – Tupi-Guarani, Port. S. Bueno). O propósito: “amedrontar as mulheres e as crianças e conservá-las em boa ordem”.
Pesa ainda na nossa cultura e formação, toda essa influência indígena e africana também. E como diz Gilberto Freire: “Permanecera, entretanto, nos descendentes dos indígenas o resíduo de todo aquele seu animismo e totemismo”. Pesa portanto, uma herança maldita de certo modo, sobre as crianças, bem como em muitos adultos. Quanto às crianças, qualquer uma pequena, aprende com a mãe ou com o pai , avó, que “no escuro tem um bicho”, ou os pais dizem: “tem um cachorro lá fora” e a criança fica pasma, com os olhos curiosos e arregalados, e quem sabe, na dúvida de acreditar no pai ou no cachorro? E ainda, uma antiga canção de ninar do norte diz: “Durma, durma, meu filhinho / lá no mato tem um bicho/chamado Carrapatu”. E no sertão, o Hupupiara, o Macobeba, tudo baseado em ameaças, pavor vago, pavor noturno. Gilberto Freire disse: “Quase toda criança brasileira, mais inventiva ou imaginosa, cria o seu macobeba, baseado nesse pavor vago, mas enorme, não de nenhum bicho em particular – nem da cobra, nem da onça, nem da capivara – mas do bicho – do bicho tutu, do bicho carrapatu, do zumbi: em última análise, do Jurupari. Medo que nos comunica o fato de estarmos ainda tão próximos da mata viva e virgem e de sobreviver em nós, diminuído mas não destruído, o animismo indígena”. O texto bíblico de Provérbios 22:6, diz: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele”. Temos que usar uma linguagem firme e racional com as crianças, como a do Salmo 23, que muitas crianças evangélicas memorizam-no entre os 3 a 5 anos de idade, e que a certa altura diz: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam” (Salmo 23:4). Também, tem-se o curioso e bom ensino do Evangelho segundo Mateus, que fala da presença dos anjos em relação às crianças: – “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos, porque eu vos digo que os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus.” (Mateus 18:10) .
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