Quando Estado patrocina pobreza
Bispo Agnaldo Sacramento
Tenho tido o privilégio de viajar várias vezes para o exterior e também são incontáveis as viagens que faço no Brasil em direção ao Norte e Nordeste chegando até aos sertões desconhecidos onde mesmo tendo dinheiro, nada se resolve, pois a realidade é outra. Lembro-me de uma ida, há 25 anos, à região de Bertolínia (PI), ao meio-dia, não achamos uma venda para compra de alimentos e o único Hotelzinho só funcionava aos sábados e domingos. Realizávamos, como sempre, atividades evangélicas e obras beneficentes. Dessa cidade, alcançávamos dois povoados: Serra Vermelha e Boa Vista, numa Rural com tração nas quatro rodas. Viajávamos no mesmo trilho dos burros, por perigosos caminhos onde, eventualmente, alguém era atacado por onças pintadas que também vinham pegar criação como ovelhas e cabritos nos terreiros das casas. Para o Estado do Amazonas, fiz muitas viagens, pelos rios Negro, Solimões, Amazonas, Purus e Madeira. Tínhamos o Barco “O Semeador” que, além de servir para a pregação do Evangelho funcionava como Pronto Socorro e ajuda humanitária. Eventualmente o Barco era colocado à disposição do setor de saúde do Governo para atender os moradores ribeirinhos em vacinações. A Igreja Batista Shalom-ABC, aqui em SCS, ou seja, o Ministério Shalom, com mais de 50 Igrejas, tem atividades em Portugal, na Índia, em Cabo Verde e no Norte da África voltadas, também, para projetos sociais. No ABC atualmente, desenvolve-se a Shalom-Morevi e, em breve, haverá obras sociais no Maranhão nas cidades de Coroatá (Pr. Bacabal) e Urbano Santos (Pr. Nonato). Na cidade de Colônia do Piauí, no sertão e perto de Oeiras, estamos finalizando um projeto da criação de uma Biblioteca e curso de informática gratuito. Já enviamos cinco computadores semi-usados e vários livros escolares. A Shalom em Colônia, em julho p.passado recebeu uma Equipe do ABC(14 pessoas) que trabalhou com 300 crianças de lares muito pobres, mas trazendo palavras de fé e esperança. Nos dias 18 a 24 de setembro, em viagem a Coroatá, no Maranhão, passo novamente em Colônia do Piauí, cuidando da parte jurídica da nossa entidade e, mais na calma, pude constatar uma outra realidade, também no Maranhão, em face do “Programa Bolsa-Família”. Quando se procura alguém para trabalhar como doméstica ou, ainda, um jovem ajudante de pedreiro, o Pastor Miquéias dizia que essa busca era difícil por causa do Bolsa-Família. De fato, diz a Constituição Federal, no seu artigo 3º, que um dos objetivos da República Federativa é erradicar a pobreza (inc.III). Ora, a lógica é clara - não se erradica pobreza dando dinheiro. O mesmo questionamento é feito sobre “dar dinheiro nos semáforos” que, no Nordeste, são “sinaleiras”. Essa é uma realidade que leva muitos a se acomodarem, também no Maranhão e em outros Estados. Existe uma nova filosofia de vida como comprar uma antena parabólica em suaves prestações (a renda de muitas famílias chega a R$ 185,00 e isso é um dinheirão lá no Brasil de cima, pois “a parcela que excede o limite previsto para Bolsa-Família recebe o nome de benefício variado de caráter extraordinário” – Lei nº 10.836, de 09/01/04); destaque-se, ainda, que a remuneração desse programa do Governo é de R$ 15,00 para cada criança com idade de até 15 anos, equivalendo a três filhos por família (R$ 45,00). O nome do órgão que cuida disso é expressivo: “Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome!” Tem-se, pois, o não-desenvolvimento social com tal visão existindo, sim, um suporte enganoso, estranho e prejudicial de combate à fome! Uma senhora da cidade de Coroatá, no Maranhão, disse-me: “depois do Bolsa-Família, ficou difícil achar uma empregada doméstica” cujo salário seria de cem reais. O emprego é desprezado e fica-se, pois, com o Bolsa-Família e com o tempo integral para televisão e muitos forrós à noite e “seja como Deus quiser” e mais: “o homem (o Presidente) é muito bão e cuida dos pobres”! “O tempora, o mores”! Ó tempos, ó costumes, já verberava Cícero.
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